Artigos e Temas - Obesidade Infantil
Obesidade Infantil
O que fez disparar a obesidade infantil na última década? Quais são as principais causas?
As principais causas do aumento da obesidade, tanto na idade adulta como na infância, são várias e complexas. Por um lado, não se pode descurar o factor genético, que obviamente exerce alguma influência na nossa saúde. No entanto a genética não justifica o aumento quase exponencial do excesso de peso e obesidade infantil nos últimos anos. Sendo assim, a hipótese mais plausível baseia-se nas alterações que a sociedade sofreu nos últimos tempos, nomeadamente: o aumento do sedentarismo, do stress, principalmente em meios urbanos, havendo cada vez menos disponibilidade para fazer refeições saudáveis e tranquilas, a um acesso mais facilitado aos géneros alimentícios (principalmente “snacks” e refeições rápidas) e, consequentemente, a alterações significativas dos hábitos alimentares. Assim, fomo-nos afastando cada vez mais da dieta mediterrânica, aproximando-nos da “dieta americana”, em que predomina a “fast food”. Ou seja, as crianças hoje em dia, em vez de brincarem na rua a jogar à bola, à “apanhada”, andar de bicicleta, como antigamente, permanecem horas em casa sentadas em frente a ecrãs (televisão, computador, consolas, etc.). Associado a este facto verificamos um aumento da densidade calórica das refeições (refeições com elevado teor de calorias e pouco valor nutricional), contribuindo para que haja um balanço energético positivo entre a ingestão e os gastos, resultando assim no aumento de peso.
É uma questão que preocupa cada vez mais os especialistas de saúde, o Governo e os pais. Quais os conselhos para os pais acerca da alimentação das crianças?
Os hábitos alimentares saudáveis são essenciais para uma boa saúde e um bom estado nutricional, especialmente nos primeiros anos de vida, pelo que devemos ter uma alimentação saudável logo desde o nascimento (e até durante a gestação). Sendo assim, nos primeiros meses, a criança deverá ser nutrida de forma equilibrada de acordo com as necessidades do organismo. Para tal, a melhor opção será sempre o leite materno, em vez dos leites artificiais. Várias investigações defendem que as crianças amamentadas têm menos probabilidade de virem a ser obesas (entre outras vantagens) dado que o leite materno é mais equilibrado, evitando uma sobrecarga calórico-proteica, que poderá levar ao excesso de peso. O ideal seria serem alimentadas apenas com leite materno até aos 4-6 meses de idade. Após a diversificação alimentar a criança deverá continuar a ter uma dieta racional e de acordo com a sua idade. Por conseguinte, os primeiros anos de vida são determinantes na aquisição de bons hábitos alimentares e aí o papel dos pais na educação alimentar é crucial. Estes deverão dar o exemplo, visto que a criança tem tendência a seguir os comportamentos dos pais. Além disso, deverão incentivar a criança a comer legumes à refeição, na sopa ou no prato, assim como fruta, apresentando diariamente estes alimentos à mesa; suprimir refeições do tipo “fast food” (hambúrgueres, cachorros, pizzas, etc.) e pré-confeccionadas (embaladas); variar ao máximo os alimentos; tentar que a criança tome um pequeno-almoço completo e faça um lanche a meio da manhã e à tarde e evitar que coma guloseimas, principalmente antes das refeições, as quais lhe irão tirar o apetite para comer o que seria desejável. Pelo mesmo motivo, os refrigerantes (sumos com ou sem gás, coca-cola, “ice-tea”) devem ser evitados, apenas serem permitidos esporadicamente em dias festivos. Simultaneamente, os pais devem motivar a criança a aumentar a actividade física: deixá-la brincar na rua (caso seja viável), realizar actividades ao ar livre em família (passeios de bicicleta, a pé, etc.), fazer com que pratique um desporto que goste (natação, futebol, dança…) e limitar as horas em frente à televisão e ao computador. Se toda a família adoptar um estilo de vida mais saudável será mais fácil para a criança seguir esses comportamentos, além de todos beneficiarem com isso.
Uma grande maioria das crianças portuguesas tem um pequeno-almoço com açúcar, o que se pode fazer para combater esse problema uma vez que quase todos os cereais para os mais pequenos têm açúcar?
É verdade que muitos cereais de pequeno-almoço têm uma grande percentagem de açúcar, porém há alternativas. Existem algumas marcas com menos teor de açúcar e com composição nutricional mais saudável. O melhor é escolher uns que sejam menos açucarados e de preferência integrais, de modo a aumentar o aporte de fibras. Além disso, a criança poderá comer pão (de padaria, fresco) com manteiga ou queijo, em vez de cereais. O pão não tem açúcar, à excepção do pão de forma embalado e do pão-de-leite, os quais devem ser consumidos com moderação por esse motivo. São também de evitar os “croissants”, “bolicaos” e folhados. A acompanhar o pão ou cereais, a criança deverá tomar leite (de preferência sem açúcar nem chocolate) ou iogurte magro ou natural. Evitar dar “suissinhos”, iogurtes açucarados ou sobremesas lácteas, pois contêm maiores quantidades de gordura e açúcar. Ao pequeno-almoço a criança também poderá comer uma peça de fruta. As quantidades dos alimentos, em todas as refeições, dependem da idade da criança ou adolescente, da sua actividade física e da sua altura.
Quais são as consequências de obesidade para a saúde da criança?
As consequências da obesidade infantil são inúmeras e podem ser mais ou menos graves, consoante o caso, havendo posteriormente repercussões a nível físico, psicológico, social e económico. A curto prazo poderá provocar deformações ósseas, alterações endócrinas, levando a uma puberdade precoce, hipertensão arterial, desequilíbrio das gorduras no sangue, apneia do sono, incapacidade motora, problemas hepáticos e renais, entre outros. A longo prazo, sabe-se que uma criança com excesso de peso ou obesa tem maior probabilidade em vir a ser um adulto obeso, principalmente se os pais também o forem. Consequentemente, terá um risco elevado em desenvolver complicações associadas à obesidade na idade adulta, como doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, insuficiência renal e hepática, certos tipos de cancro, alterações do metabolismo, problemas respiratórios, além de menor qualidade de vida e menor longevidade. A nível psicológico, a criança obesa tem menos auto-estima, menos auto-confiança e muitas vezes é vítima de discriminação social, podendo resultar em depressão.
Dietista Filipa Soares - Serviços de Nutrição e Dietética
